Memórias sobre o 25 de Abril de 1974


Após o desafio lançado pela professora resolvi entrevistar os meus pais, com uma breve entrevista telefónica sobre o 25 de Abril de 1974, visto que na altura tinha somente 11 anos e muitos aspectos passavam-me ao lado ou então estavam muito esquecidos.
Estas foram as questões colocadas:

 Onde estavam quando se deu o 25 de Abril?

Nesse dia estávamos a trabalhar, nem demos por isso, porque vivíamos numa aldeia longe da confusão, que se passava em Lisboa.

 Que recordações guardam desse dia?

Poucas, só o que ouvíamos na rádio.

 Como se vivia naquele tempo?

Como em qualquer aspecto da vida quotidiana, a alimentação dependia da classe social e, em muitos casos também, do local onde se habitava. Nós, éramos naturais do campo e as pessoas comiam coisas diferentes das da cidade. Comia-se pouco fora de casa e não havia muitos restaurantes com preços acessíveis. Ir comer fora era uma festa, própria de acontecimentos a celebrar. A alimentação obedecia a padrões que mostravam pouca variedade e era muito simples. Predominava a sopa e o pão. Quase sempre existia uma deficiência nutritiva, devido à falta de proteínas

O vestuário era variado e complicado. Tu usavas calções. Por volta dos 10/11 anos, começaste a usar calças. Com as calças usavas uma camisa branca, ou às riscas. Se fazia frio, vestias um pullover ou uma camisola de manga comprida, frequentemente tricotada por mim ou pela tua irmã, (mais velha 10 anos). Os sapatos levavam protectores na biqueira para proteger o calçado e não se estragarem tão depressa.

 Que mudanças trouxe a Revolução para a vida das pessoas da região?

O cinema conquistou a aldeia e o animatógrafo chegou. Permitiu a diversão das camadas mais jovens. A maior parte dos filmes passados era de produção indiana. Além disso chegaram também as carrinhas da biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian, que permitia pôr a leitura em dia e “viajar” no espaço e no tempo.

Outros divertimentos eram as festas e os bailes locais, que facilitavam o convívio, a diversão e os namoricos.

 Que significado teve para vocês esta data?

Lembro-me que nos inícios de 1974, o clima de descontentamento e agitação era grande. O povo português sentia-se desiludido pela liberalização do regime e pela interminável Guerra Colonial.

O fim da ditadura parecia a única solução para resolver estes problemas. Na noite de 24 para 25 de Abril, desencadeou-se o golpe militar sobre a iniciativa do MFA (Movimento das Forças Armadas, também conhecido por “movimento dos capitães).

Conseguindo controlar pontos-chave da cidade de Lisboa, na altura muito distante de nós, o MFA apenas encontrou alguma resistência por parte da PIDE/DGS.

Mãe: A revolução triunfou, o que ouvi com satisfação na rádio e também falavam dos cravos colocados nos canos das espingardas. Ainda hoje, constituem um dos símbolos da Revolução, símbolo da alegria pelo derrube de um regime repressivo que tinha durado 48 anos.


A Revolução de Abril trouxe a Portugal uma onda de euforia, que cortou com a melancolia do período anterior. A geração libertada vai aderir rapidamente às modas americanas e europeias. Agora a voz do povo fazia-se ouvir. A rádio e a televisão transmitiam acesos debates políticos.

A juventude comemorava a liberdade nas ruas. Contudo, a euforia da liberdade trouxe alguns excessos!

A crença na possibilidade da reforma agrária levou à ocupação de casas e campos e ao desrespeito pela propriedade privada.

Deve-se à Revolução do 25 de Abril de 1974 a reconquista da liberdade e a instauração do regime democrático, em que hoje vivemos, razão porque este acontecimento constitui para o País um dos factos históricos mais importantes da História actual.

Após a entrevista aos meus pais, recordei alguns acontecimentos que me pareciam muito distantes e lembro-me, quando era pequeno do rádio sempre presente em casa, que tocava e onde se ouviam as notícias censuradas pela DGS.

Actualmente, quando converso com a minha esposa e comparando a minha alimentação com a dela, que viveu junto de Lisboa, existe uma grande diferença. Ela desde sempre comeu iogurtes da Ucal e os iogurtes não chegavam à minha aldeia natal, localizada a cerca de 150 Kms de Lisboa. Hoje com os meios e vias de comunicação estamos próximos da capital, mas naquela altura não era assim.

Ainda bem que os tempos mudaram e o meu filho pode usufruir de outras coisas e essencialmente viver em democracia e liberdade.

Gostaria de terminar com este poema de José Carlos Ary dos Santos, As Portas que Abril abriu.

Era uma vez um pais
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.

Ora passou-se porém
que dentro deum povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.
Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Agora ninguiém mais cerra
as portas que Abril abriu!


Manuel Dias dos Santos 1ºFB

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