Aventuras no Rio

    Nasci no final da década de 50 e passei a minha infância em Tramaga, uma aldeia onde a água era da fonte, a ceia servida junto à lareira e a luz vinha do candeeiro a petróleo. As casas arrumadinhas, caiadas de branco eram alongadas pelos pomares que desciam em socalcos até ao rio.
    Vivia com os meus pais e quatro irmãs no seio de uma família alargada com primos, tios e avós. Na cumplicidade de sermos cinco irmãs com idades aproximadas, criávamos o nosso próprio programa de variedades imitando os nossos artistas da rádio. Assim, as "Cinco" ainda meninas, eram convidadas a subir ao palco para abrilhantar as festas anuais da aldeia.

    Acordava com o cantar do galo. Bebia café, comia o pão e o queijo feitos pela minha mãe e ovos fritos com chouriço da criação da casa. Apanhava tangerinas, laranjas, romãs, lúcia-lima, erva-cidreira e fazia fogueiras de alecrim. Ainda hoje adoro aqueles cheiros!
    Pela manhã ouvia cair água dos alcatruzes de um poço onde avencas cresciam nas paredes interiores e dançavam ao ritmo da nora. Daí saía água para a rega que o meu pai fazia com sabedoria de mestre, pois dar vida à terra era uma das formas de sustentabilidade da família.
    No pátio da Escola Primária, à sombra das acácias, as crianças brincavam com alegria no recreio, enquanto no largo da aldeia os homens ganhavam o dia a tirar cortiça.

    Recordo a fonte, com a sua imponente escadaria, de branco  caiada em dias de romaria e enfeitada com arcos de canas verdes e flores coloridas. À tardinha, mulheres e raparigas, com cântaros de barro à cabeça levavam água para casa. Ali, por vezes se combinavam encontros para alguns namoricos.
    Ao coaxar das rãs escondidas nos agriões descíamos a ladeira e então, entre choupos e salgueiros, pedras e pedrinhas da ribeira, encontrávamos refúgio para as nossas aventuras.

    Hoje, posso dizer que a atitude positiva e optimista que tenho perante o mundo se deve ao facto de ter crescido num ambiente tranquilo e sereno.

                                                                                                                                                                                      Margarida Policarpo

TARDE DE VERÃO ACIDENTADA

Quando eu era miúda vivia nos Olivais que na altura era um bairro em que todas as crianças brincavam na rua, nos espaços verdes. Brincávamos na relva recentemente cortada, o cheiro era agradável e rebolávamos por cima dela. Brincávamos às escondidas, às casinhas, à apanhada e outras brincadeiras. Comprávamos chupa-chupas às riscas, rebuçados e outras guloseimas a um senhor que passava com uma mota com atrelado.
Era hábito subir às árvores, mas nesse dia, as coisas complicaram-se. O que sucedeu foi o seguinte. Andávamos a atirar pedras para os pés uns aos outros quando atirei uma pedra que fez ricochete no chão e acertou na cabeça de um rapaz do prédio. Perante a gravidade do acto refugiei-me no cimo de uma árvore com medo da vingança. Eu era uma rapariga e tinha ferido o orgulho do Manel, um rapaz mais velho que não se iria ficar.
E eu tinha razão. O Manel despeitado tinha uma pequena lâmina e como eu estava empoleirada na árvore não encontrou melhor maneira de exercer a sua vingança do que passar e fazer-me um pequeno corte na nádega.
Acabámos os dois a chorar, numa visita forçada ao Centro de Saúde, acompanhados pelas respectivas mães. Esta experiência mudou a nossa maneira de pensar e de brincar e começamos a ter mais cuidado com as brincadeiras.
Aquele bando de miúdos que nós éramos ainda hoje continua a dar-se e ainda soltamos gargalhadas quando recordamos aquela tarde de verão acidentada.

Anabela Roberto
1FB




A FARDA DO ULTRAMAR

A minha memória leva-me aos tempos em que era criança e o Carnaval era a festa do ano que mais gostava. Adorava mascarar-me e todos os anos tinha uma farda diferente… fada, espanhola, nazarena, pescadora... mas a máscara que mais memória me traz é a farda da tropa. Tenho um enorme carinho e respeito por esta farda porque está na minha família há 38 anos. Não só pela antiguidade mas por saber a quem pertenceu e pela época em que foi usada.

Quando o meu pai regressou da guerra do ultramar e trouxe a sua farda, a minha mãe decidiu encurtá-la incluindo os acessórios como o cinto, boina, quico e as divisas de 1º cabo. Isto, para que a minha irmã a pudesse vestir no Carnaval e, assim, ficar com uma recordação daqueles tempos em que se vivia na incerteza se ele regressaria são e salvo. Hoje agradecemos a Deus pelo meu pai ter regressado do ultramar (caso contrário não estaria aqui a contar a minha memória) pelo menos sem problemas físicos porque os traumas, esses, ainda hoje vivem com ele.

Olhando para trás é engraçado ver que esta farda já vestiu 3 gerações da minha família. É já no próximo ano de 2011 que o meu filhote vai ter o privilégio de vestir a farda do avô. Esta será sempre mais do que uma simples recordação. É um bem precioso que pretendo passar aos meus filhos, netos, bisnetos...para que nunca passem aquilo que o meu pai passou.


1ª FB
Mónica Janeiro
 

As férias da minha infância

Durante a minha infância as férias eram passadas com os meus pais e os meus irmãos (a minha irmã mais velha e o meu irmão mais novo). Fazíamos imensos passeios mas, onde íamos com maior frequência era para o Alvorge, uma aldeia situada algures entre Condeixa e Ansião, distrito de Coimbra. Os meus avós paternos apesar de morarem na zona de Lisboa têm também uma casa grande e centenária naquela aldeia.
Recordo-me perfeitamente de ser criança e sentir a calma que aquele lugar transmitia, de correr por aquele quintal, que na altura para o meu tamanho, me parecia enorme. De tentar regar as plantas da minha falecida bisavó vezes sem conta enquanto ela me perseguia desesperadamente para evitar que eu lhe destruísse por completo o jardim. Também recordo perfeitamente o som do sino da igreja que tocava ao longe de hora em hora.
O lugar era tão calmo que os automóveis quase nunca passavam, e por esse motivo, os meus pais deixavam-nos andar de bicicleta sozinhos por aquela rua que não tinha alcatrão, tinha apenas uma estrada de pedra de origem romana.
Já há bastante tempo que não visito aquela aldeia. Desde que a minha bisavó faleceu que a casa não é habitada e, hoje em dia, já não tenho nenhum motivo que me leve até lá.

Marta Azevedo

Menina dos caracois


Quando tinha mais ou menos 6 anos de idade apanhei a mania de ter o cabelo encaracolado. Fui tão insistente, fiz tanta birra que a minha mãe lá decidiu fazer-me a vontade e levou-me ao cabeleireiro onde fiz a minha primeira permanente....
Eu senti-me belissima, tão contente, que a minha mãe me vestiu um vestido todo pomposo e fomos tirar umas fotos...
Eu estava felicíssima porque me sentia uma senhora crescida.
O problema é que os caracois tinham vindo para ficar e, cada vez que e penteava chorava porque o cabelo ficava embaraçado e magoava. Tive então de esperar que crescesse para finalmente o poder cortar e acabar com este tormento, o que demorou uns bons meses.
Tal não foi o desespero que nunca mais fiz outra permanente na minha vida e já lá vão muitos anos...



Ana Sofia Serra 1ºFB



A SEMENTE DO MAR...


























     Sou fruto da semente de amor puro,
     Mas gerei intensas e quotidianas atribulações
     Que sossegaram e se evaporaram
     Apenas com um materno e doce olhar;

     Um sorriso único e sincero, que me preenche
     E ilumina todos os dias da minha existência.
     Sou árvore de raízes de um amor incondicional
     Que me deram e que darei a quem me rodeia
     Enquanto viver.

     Ainda sinto a leveza do meu corpo salgado
     E flutuante, naquele delicioso e eterno banho
     De mar… puro, cristalino e genuinamente belo,
     Como o magnífico cenário que me cercava.

     Que enorme ligação e estrondosa felicidade…
     No mar sim, reencontrei-me e reencontro-me
     Com a minha essência, as minhas raízes…
     E com Deus!

     Lá sim, sou feliz… lá quero mergulhar,
     Naquela imensidão de Paz e Harmonia…
     Lá quero viver para sempre e as minhas cinzas
     Oferecer-lhe, quando deste mundo
     Desaparecer.

     Com quatro anos apenas descobri o meu tesouro,
     Um verdadeiro enamoramento pelo mar…
     E aprendi que ao saber nadar,
     Era mais feliz que cada dia ao caminhar…

     E naqueles fortes braços paternos, entre gargalhadas,
     Bastantes "pirolitos" e rasgados sorrisos do mesmo sangue,
     Encontrei o sonho que reside para sempre no meu coração…
     A semente do mar… a semente de amar.



     Marta Isabel Carolino
     1º. FB



Memórias da Festa da minha Aldeia

Todos os anos faz-se uma festa em honra da Nossa Senhora da Salvação em Vila-de-Rei, Bucelas.
Estávamos em Agosto de 1963. A minha mãe costurou à mão um vestido novo para eu levar à festa e enrolou-me papelinhos no cabelo para me fazer caracóis e o meu pai ajudou a construir os andores em madeira para transportar os santos na procissão.
Chegou o dia da festa, o arraial estava lindo, todo enfeitado com arcos e flores de papel às cores. O chão estava coberto de murta verde com o seu cheiro característico, as janelas estavam enfeitadas com colchas de seda às cores.
Foi então que a minha mãe me vestiu um fato de anjinho todo branco com asas e uma aureola na cabeça para eu acompanhar a procissão. Eu não gostei e fiz uma grande birra.
Estávamos à porta da capela, começou a sair a procissão. Os homens transportavam os andores nos seus ombros, com os respectivos santos enfeitados com ouro, dinheiro e flores naturais  enquanto  que outros deitavam foguetes.
Eu achei aquilo tudo muito estranho, e tive muito medo dos foguetes, principalmente quando as canas vinham cair perto de mim.
Não queria acompanhar a procissão, queria fugir dali, mas a minha mãe obrigou-me e eu fui sempre muito contrariada e com muito medo.
A seguir à procissão a minha mãe trocou-me aquele fato por outro vestido que ela tinha feito e levou-me a visitar a minha avó e as minhas tias. Aí eu fiquei muito feliz.
Hoje, passados 47 anos, recordo com saudade este dia, pois a minha avó, algumas tias e a minha mãe já partiram, no entanto, continuo a não gostar de acompanhar procissões, e a detestar foguetes.




Valentina Cachucho
1º FB

A Estrada da minha infância


Ainda me lembro do tempo em que corria para casa dos meus avós e ficava à espera que o meu avô fosse para a horta, para me levar com ele na sua carroça. Era uma aventura! Até à casa dos meus pais lá íamos nós aos solavancos, naquela estrada que estava a ficar degradada. Quando chovia parecia um rio de lama e era certo que nesses dias ia levar uma tareia, pois andava sempre a correr e a brincar pelas poças do caminho, e como nessa altura a roupa era lavada no tanque a minha mãe não ficava muito contente.
Na minha aldeia as crianças nunca foram muitas e, da minha idade éramos apenas quatro. Não tínhamos por hábito brincar juntos a não ser quando entrámos para a escola. Mas, quando passei para a 2ª classe, qual foi o meu espanto, havia caras novas. Mas quem eram aquelas crianças? Nunca as tinha visto!
Pois é, com o inicio da construção da auto-estrada A8, muitas pessoas vieram trabalhar e morar para a minha aldeia, devido aos estaleiros do Mota & Companhia serem muito próximos.
A partir daí muita coisa mudou, havia tanto movimento, camiões o dia todo para cima e para baixo, explosões que faziam estremecer o chão, a aldeia andava num reboliço. Lá se foi a bicicleta há tanto prometida, pois os meus pais não achavam seguro. Mas o melhor de tudo era que tinha amiguinhos novos, que não eram cá da terra e com costumes bem diferentes dos meus, era brincadeira o dia todo e, muito importante, tinham bicicleta!
Hoje quando vou de carro na A8 dou por mim a pensar: “Ai se os meus pais soubessem que eu às escondidas vinha para aqui andar de bicicleta, quando isto ainda estava em construção…!”
Diariamente devem passar milhares de pessoas nesta estrada mas poucos lhe devem dar a importância que eu lhe dou.

Liliana Inácio
1º FB
Enquanto jovem vivi numa aldeia no concelho de Abrantes e quando chegavam as férias de Verão juntávamo-nos todos em grupo ao ar livre, o que é praticamente impensável nos dias de hoje. Divertíamo-nos imenso! Há 35 anos atrás as brincadeiras eram diferentes dos dias de hoje e os perigos eram outros. Corríamos pelos campos, aproveitando para nadar na ribeira, já que a praia mais próxima ficava acerca de 100 Kms. Éramos felizes com tão pouco.


Mas, continuando a folhear as minhas memórias. Era frequente subirmos às árvores e colher fruta alheia aos vizinhos e em cima dos troncos delíciavamo-nos com os suculentos pêssegos. Geralmente existia um que ficava de vigia, não fosse surgir algum imprevisto, como aconteceu por várias vezes e que nos alertava para podermos fugir do dono zangado. Corríamos até as nossas pernas não poderem mais e só parávamos quando já não se vislumbrava o “inimigo”.

Hoje, enquanto adulto retenho na minha memória estes momentos tão únicos e se fechar os olhos quase que consigo vê-los, mas escapam-me por entre os dedos.

Actualmente, quando visito a minha aldeia recordo os ambientes vividos e os colegas com grata satisfação e ainda sinto no ar o cheiro de outrora.

Como pai e cidadão idóneo, tento contar ao meu filho algumas das peripécias infantis, evitando falar do “roubo” da fruta, já que vai contra os valores que lhe tento transmitir. Mas, o companheirismo é intemporal e ainda hoje mantenho as amizades feitas naquele tempo. Por ironia do destino muitos dos meus antigos companheiros de aventuras são hoje agentes conceituados da autoridade. O Mundo dá cada volta e o tempo é implacável e vai passando rápido demais, deixando as suas marcas. Tudo isto faz-me lembrar a célebre canção: “Ó tempo volta para trás…”.


Manuel Dias dos Santos
1ºFB

Infância Colorida

Era uma vez uma menina que morava numa casa verde com os pais  e o irmão mais velho na freguesia de Lousa. Aos 4 anos a menina era alegre e gostava de brincar na rua com o seu irmão e os vizinhos da sua idade. Brincavam à bola e ás escondidas. Ela andava no jardim de infãncia de Lousa mas não gostava de lá andar porque os amigos de brincadeiras não andavam lá. No jardim de infância a menina fazia desenhos sobre  a sua familia pois gostava muito dela. Nas festas comia sempre arroz doce que a sua mãe fazia e nas férias vajava para Beja, no Alentejo onde moravam os avós e os tios. No Alentejo a menina brincava sempre até mais tarde com os primos pois fazia muito calor na rua.
Hoje a menina cresceu ainda é alegre e ainda mora em Lousa , na casa verde com os pais. Os avós e  irmão já morreram ,os vizinhos já não moram lá, já não come arroz doce porque enjoou mas ainda vai ao Alentejo ver o resto da familia.
Essa menina era eu ,sou uma pessoa feliz porque tive uma infância feliz mas como já não tenho o meu irmão, nem os vizinhos , nem os meus avós sinto-me mais sozinha.

Rosário Duarte 

Orca

ORCA

Quando falamos de memórias, penso sempre na terra dos meus Avós e das férias que lá passei. A vontade de ir nunca era muita, mas depois, a vontade de regressar era ainda menor. Orca é o nome da aldeia onde os meus avós moravam. Fica na Beira Baixa, em plena Cova da Beira, perto de Alpedrinha. Nesse tempo, entre os meus 9 e 12 anos, durante as férias escolares de Verão, os meus Pais levavam-me para casa dos meus Avós para aí passar cerca de 3 semanas.

A vida na aldeia tinha 2 momentos distintos, o primeiro decorria de 2ª a 6ª feira e era passado no “Monte”, e o segundo era o fim-de-semana passado na Orca. São os tempos passados no Monte que fazem parte das minhas memórias. O início do dia começava cedo e era dedicado a alimentar a bicharada como porcos, galinhas, vacas, ovelhas, coelhos e sei lá mais o quê. O resto do dia era passado a apanhar fruta, vegetais ou cereais, a cuidar das terras, a regar. Ajudava no que podia. O som da água a passar pelos carreiros feitos com a enxada, o cheiro dos Rosmaninhos, do Serpão, e da Segurelha, os banhos tomados num alguidar ao fim da tarde, o jantar à luz das velas ou da fogueira trazem-me uma nostalgia imensa. Talvez por apanhar a fruta das árvores e a comer, ordenhar a vaca e beber o leite ainda quente ou simplesmente porque os meus Avós já partiram, apesar de às vezes ter a sensação de os ouvir chamar-me….”Toninho”….

Às sextas-feiras à tarde voltávamos à Orca para aí passar o fim-de-semana. Numa dessas sextas-feiras quando regressávamos do Monte na carroça, puxada pela mula….o que ela sofria….lembro-me de olhar para trás e ver o céu vermelho e, mais à frente a rua cheia de sapos. O meu Avô disse-me que vinha lá trovoada. E não se enganou. Essa noite foi passada a rezar a Santa Bárbara no meio dos meus avós. No fim-de-semana limpava-se a casa da aldeia, comprava-se o que era necessário para a semana seguinte e no Domingo íamos à missa.

Para uma criança da cidade a oportunidade de conhecer e viver no campo é uma experiência fantástica. Lembro-me de na escola dizer que tinha ajudado a tosquiar ovelhas e os meus colegas perguntarem….”O que é isso?”… Saber distinguir um bode de uma ovelha, uma macieira de uma cerejeira, eram coisas que a maior parte dos meus colegas desconhecia.

Mas, como quase tudo na vida, só damos valor às coisas muito mais tarde ou depois de as perder. A casa dos meus avós e o monte ainda existem. Moram lá os meus Pais e hoje em dia, sempre que podemos, fazemos a nossa “Grande Fuga” para o campo, para descansar e para que o meu filho aprenda que sentimento é este que nos puxa até lá.

Alexandre Pereira 1º FB EFA

Memórias que ficam para sempre!

Quem não guarda memórias que ficam para sempre?
Recuo no tempo e com grande saudade recordo-me não de um acontecimento, mas sim de uma pessoa, o meu Avô….
Ainda hoje sinto a sua mão rugosa, de pele seca a agarrar a minha. O seu sorriso, marcado pelas rugas de quem trabalhou muito no campo. O seu cheiro a terra. A sua voz, forte mas igualmente doce. Durante o Verão, os serões eram passados no pátio da minha casa. As tardes eram uma animação, eu não precisava de mais nada apenas da companhia do meu Avô. Levava-me a passear ao campo, pelas suas terras e desafiava-me a apanhar azedas e a prová-las.

Com ele aprendi a respeitar o próximo, a rir, a sentir, a amar, a sonhar…
São muitas as palavras que eu poderia utilizar para descrevê-lo mas poucas as que podem caracterizar os sentimentos que me transmitiu e ficam para toda a vida.
Hoje sou reflexo do que senti e aprendi com esse Homem e sinto-me privilegiada por ser sua neta.
Memórias que ficam para sempre. Saudade, com que saudade eu me lembro de ti, Avô.


Liliana Marques

E a azáfama começava em Janeiro

A azáfama começava todos os anos, em Janeiro, com os preparativos para a participação no Corso de Carnaval. Todos se juntavam em volta desses preparativos, familiares e vizinhos, por muito cedo que se começasse, havia sempre trabalho para acabar na Véspera do Desfile.
 Lembro-me de um Ano em especial,, em meados da Década de 70 do século passado, não sei por ser um dos primeiros que me lembro, se pelo que tentávamos representar no Corso - a comunidade Saloia.


   O meu Tio tinha uma Burra e uma Carroça que aproveitamos para utilizar. Toda a gente se empenhou em tentar encontrar o máximo de possível de coisas que pudessem representar a comunidade Saloia. E com o passar dos dias, as coisas foram aparecendo, as roupas antigas, desde coletes, saiotes, barretes, faixas, lenços de cabeça e outras coisas mais, os utensílios de trabalhar a Terra, porque a comunidade saloia, sempre foi conhecida pela sua vida de campo e de cuidados de animais, utensílios esses que viriam a ser transportados na Carroça outros pelos homens e mulheres. Recordo-me por exemplo que ao meu Pai coube o cargo de transportar um pulverizador verde já um pouco enferrujado que com o qual, pulverizava um pequeno terreno que cultivava.
   Depois de cerca de um Mês de costuras, limpezas, pinturas, reparações, etc…, na véspera do corso, como sempre, estava então tudo pronto e afinado para o desfile do dia seguinte. Então lá fomos para o corso com carroça puxada pela Burra. Lembro-me também que na carroça ia um cão que o meu tio tinha e umas gaiolas com galinhas e coelhos e, como em qualquer corso de Carnaval da época não faltavam as bisnagas de água. Alguém se lembrou de lavar muito bem o bendito pulverizador que o meu Pai carregava e enchê-lo de água em jeito de bisnaga para nos podermos defender dos ataques. Ainda hoje me recordo daquele Carnaval e ainda há dois anos na escola do meu filho retomaram o tema para a turma dele mostrar no Carnaval, e eu e a minha mulher lá o arranjamos da melhor maneira possível.

José Leal
1ºFB

Regresso ao passado




Quando vejo o DVD Fawlty Towers sou transportado para a minha infância. Tempo em que as preocupações e responsabilidades não existiam e apenas se pensava nas brincadeiras com amigos, em ver TV e, claro, no que queríamos ser quando fossemos adultos.
Recordo-me dos dias passados a ver séries que hoje são autênticos ícones da comédia e outras da animação. São, hoje em dia, séries que geram saudades numa geração. Lembro-me que foi a ver alguns desses programas televisivos que aprendi inglês e absorvi algumas características que me ajudaram a passar a infância, adolescência e estão a ajudar na idade adulta.
Mas, ao relembrar-me da infância, não podia deixar de recordar também as tardes com os amigos, os jogos de futebol nas tardes soalheiras, as idas ao café mais próximo para nos refrescarmos e, assim, ganharmos forças para brincar até ao cair da noite.
A vida era simples e ao singelo gritar de “mãe”, som que ecoava de uma ponta a outra da rua, as janelas enchiam-se de senhoras que desciam fios ou cordéis com sacos de comida, bebida e até mesmo peças de roupa, para assim nos poupar o tempo de ir a casa lanchar, trocar de calções ou de calçado.
Nessa altura da minha vida aprendi que os momentos que se passam com os amigos são momentos de ouro. Vivíamos de forma inocente e como uma irmandade. Hoje, mantenho os mesmos amigos dessa altura e sei que quando de mim precisam ou quando deles preciso, estaremos presentes uns para os outros pois, como diz o poeta, “ É mais vulgar ver um amor absoluto do que uma amizade perfeita” e, todas essas amizades conservadas desde a infância são, de facto, perfeitas.

1º FB
Renato Gonçalves




O meu dente!

Na minha infância, pelos meus 4, 5 anos, costumava ir passar férias a casa dos meus tios, no Alentejo. Eles tinham casa na vila, mas viviam como caseiros num monte alentejano, sem água canalizada, nem luz eléctrica. Lembro-me que a minha tia, conservava o leite acabado de tirar das ovelhas, num alguidar de barro com água fresca tirada do poço! Em frente à casa havia uma figueira onde, o meu tio, fazia um baloiço com cordas e uma tábua velha para as crianças. Tomávamos também, banho num tanque com água de uma nascente ali perto e o que me fazia mais confusão eram as abelhas das colmeias que o meu tio tratava e que não nos largavam!

Uma dessas vezes em que fui para lá passar férias, tinha um dente a abanar e a minha mãe recomendou-me que o guardasse, quando ele caisse, uma vez que era o primeiro dente .Um belo dia, fui com os meus tios regar a horta, como era costume ao final do dia, porque já não fazia tanto calor e entretida que estava a abrir e fechar os rêgos para que a água passasse, quando de repente me cai o dente, mesmo no momento em que abro o rêgo para a àgua passar! Foi um desespero, uma berraria que fiz porque o dente, que tanto a minha mãe me tinha pedido para guardar tinha ido com a corrente! Mas nada havia a fazer, pois a àgua tinha-o engolido, terra adentro!

É com muitas saudades que recordo as noites sem televisão e ouvir os lobos uivarem, quando me ia deitar! E tenho muita pena de que os meus filhos, hoje não possam ter uma férias assim, saudáveis, sem darem importância à televisão, aos jogos, ao computador, mas... os tempos são outros!

Ana Lachica Figueiredo
1º FB

Um dia de Praia


Esta recordação passou-se num ano histórico, o verão de 1974. Lembro-me a alegria da família pois o meu irmão mais velho já não tinha que ir para a guerra de África e recordo-me das cores garridas, época em que todos se vestiam com muito colorido, os homens usavam cabelo comprido e, o meu irmão, não fugia a regra. Eu achava piada, o meu pai nem tanto...
Neste verão uma das minhas idas à praia não correu tão bem como de costume. Comecei a ver os preparativos na véspera, sim, porque para mim, neste tempo, à ida a praia era um acontecimento. Tínhamos que levar um bom farnel para comermos debaixo da barraca que alugávamos para o dia inteiro. Desta vez fomos com uns vizinhos que eram emigrantes e estavam cá de férias. Tinham um filho da minha idade, o Zé António, que entrava em todas as brincadeiras apesar de muitas vezes não se entender bem o que dizia, pois falava meio Português meio Francês, mas as crianças não necessitam falar a mesma língua para uma boa brincadeira.
Assim que chegámos à praia, os nossos olhos ficaram logo arregalados com umas grandes pás que estavam numa banca de vendedores ambulantes. Imaginámos logo a ajuda que nos iriam dar nas nossas brincadeiras e construções de areia e não é que tivemos sorte, pois a seguir a alguns argumentos e pedinchices conseguimos convencer os pais a fazerem tal compra. Lembro-me da minha euforia pois não era uma pá de praia qualquer era uma pá GIGANTESCA. Só que quando menos esperava, logo nas primeiras pazadas partiu-se fantástica pá. A desilusão não podia ser maior seguiu-se uma choradeira e uma birra tremenda.
Foi o suficiente para aquele dia de Praia se tornar uma grande decepção e uma chatice. Este episódio da minha vida ainda hoje me leva a pensar em como um pormenor nos pode estragar um dia ou um acontecimento que à partida, tinha tudo para ser magnífico.

1ºFB
Carla Pereira

Memórias da minha Infância


As minhas minhas memórias de infância salienta-se não um acontecimento, mas sim uma pessoa… Os Pais, os Avós, os Tios, todos são marcantes na nossa vida, mas nas circunstâncias da minha infância a minha memória mais doce é de uma tia, muito especial para mim, que infelizmente já não faz parte do meu dia-a-dia. Ela tomava conta de mim, enquanto os meus pais estavam a trabalhar.

Resistiu a uma história de vida marcante e, no entanto, manteve sempre o seu sorriso doce, cheio de sentimentos, sempre com bons conselhos. E apesar da sua aparência frágil, tinha uma garra de ferro…

Quando fecho os olhos, os pensamentos voltam atrás no tempo… é como se estivesse a reviver esses momentos… lembro-me dos seus lindos cabelos brancos… do seu lindo sorriso… sinto o cheiro delicioso da sua pele e de como era macia… sinto a forte abraço que me confortava sempre que precisava. Adorava agarrar-me ao seu pescoço e dar-lhe beijos… beijos… beijos. Não consigo evitar estas lágrimas de saudades, do calor do seu colo, que foi tantas vezes o meu embalo e tantas vezes me retirou a dor.

Lembro-me em especial de uma história… A minha tia tomava conta de mim e de mais duas primas minhas e, quando era a hora de dormir a sesta eu, irrequieta como sempre, não dormia nem deixava as minhas primas dormir. Então a minha tia tirava-me da cama e levava-me para a sala, sentava-me ao seu colo e cantava para mim até eu adormecer.

A criança que fui, a infância que vivi, todo este carinho que recebi faz-me ter hoje uma vontade enorme de retribuir todas essas coisas boas... ajudou-me a ser mais carinhosa e tolerante, mais compreensiva com os outros e consequentemente mais feliz.

Li em algures uma expressão que adorei e penso que não haveria uma melhor forma de terminar… “O tempo que passou, se faz presente, reconheço na pessoa que sou a que fui, na interacção com os lugares, com as pessoas e seus saberes… com a vida. “

Manuela Rolo  1º FB
     

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