Orca

ORCA

Quando falamos de memórias, penso sempre na terra dos meus Avós e das férias que lá passei. A vontade de ir nunca era muita, mas depois, a vontade de regressar era ainda menor. Orca é o nome da aldeia onde os meus avós moravam. Fica na Beira Baixa, em plena Cova da Beira, perto de Alpedrinha. Nesse tempo, entre os meus 9 e 12 anos, durante as férias escolares de Verão, os meus Pais levavam-me para casa dos meus Avós para aí passar cerca de 3 semanas.

A vida na aldeia tinha 2 momentos distintos, o primeiro decorria de 2ª a 6ª feira e era passado no “Monte”, e o segundo era o fim-de-semana passado na Orca. São os tempos passados no Monte que fazem parte das minhas memórias. O início do dia começava cedo e era dedicado a alimentar a bicharada como porcos, galinhas, vacas, ovelhas, coelhos e sei lá mais o quê. O resto do dia era passado a apanhar fruta, vegetais ou cereais, a cuidar das terras, a regar. Ajudava no que podia. O som da água a passar pelos carreiros feitos com a enxada, o cheiro dos Rosmaninhos, do Serpão, e da Segurelha, os banhos tomados num alguidar ao fim da tarde, o jantar à luz das velas ou da fogueira trazem-me uma nostalgia imensa. Talvez por apanhar a fruta das árvores e a comer, ordenhar a vaca e beber o leite ainda quente ou simplesmente porque os meus Avós já partiram, apesar de às vezes ter a sensação de os ouvir chamar-me….”Toninho”….

Às sextas-feiras à tarde voltávamos à Orca para aí passar o fim-de-semana. Numa dessas sextas-feiras quando regressávamos do Monte na carroça, puxada pela mula….o que ela sofria….lembro-me de olhar para trás e ver o céu vermelho e, mais à frente a rua cheia de sapos. O meu Avô disse-me que vinha lá trovoada. E não se enganou. Essa noite foi passada a rezar a Santa Bárbara no meio dos meus avós. No fim-de-semana limpava-se a casa da aldeia, comprava-se o que era necessário para a semana seguinte e no Domingo íamos à missa.

Para uma criança da cidade a oportunidade de conhecer e viver no campo é uma experiência fantástica. Lembro-me de na escola dizer que tinha ajudado a tosquiar ovelhas e os meus colegas perguntarem….”O que é isso?”… Saber distinguir um bode de uma ovelha, uma macieira de uma cerejeira, eram coisas que a maior parte dos meus colegas desconhecia.

Mas, como quase tudo na vida, só damos valor às coisas muito mais tarde ou depois de as perder. A casa dos meus avós e o monte ainda existem. Moram lá os meus Pais e hoje em dia, sempre que podemos, fazemos a nossa “Grande Fuga” para o campo, para descansar e para que o meu filho aprenda que sentimento é este que nos puxa até lá.

Alexandre Pereira 1º FB EFA

1 comentários:

Talvez o seu filho reconheça alguma coisa desse "ir à terra" que aqui conta, no livrito "Orca Terra", publicado no mês passado pela 100Luz. Penso que muito do que lá está será comum a muitos jovens citadinos dos anos 60.

 

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