Esta recordação passou-se num ano histórico, o verão de 1974. Lembro-me a alegria da família pois o meu irmão mais velho já não tinha que ir para a guerra de África e recordo-me das cores garridas, época em que todos se vestiam com muito colorido, os homens usavam cabelo comprido e, o meu irmão, não fugia a regra. Eu achava piada, o meu pai nem tanto... Neste verão uma das minhas idas à praia não correu tão bem como de costume. Comecei a ver os preparativos na véspera, sim, porque para mim, neste tempo, à ida a praia era um acontecimento. Tínhamos que levar um bom farnel para comermos debaixo da barraca que alugávamos para o dia inteiro. Desta vez fomos com uns vizinhos que eram emigrantes e estavam cá de férias. Tinham um filho da minha idade, o Zé António, que entrava em todas as brincadeiras apesar de muitas vezes não se entender bem o que dizia, pois falava meio Português meio Francês, mas as crianças não necessitam falar a mesma língua para uma boa brincadeira.
Assim que chegámos à praia, os nossos olhos ficaram logo arregalados com umas grandes pás que estavam numa banca de vendedores ambulantes. Imaginámos logo a ajuda que nos iriam dar nas nossas brincadeiras e construções de areia e não é que tivemos sorte, pois a seguir a alguns argumentos e pedinchices conseguimos convencer os pais a fazerem tal compra. Lembro-me da minha euforia pois não era uma pá de praia qualquer era uma pá GIGANTESCA. Só que quando menos esperava, logo nas primeiras pazadas partiu-se fantástica pá. A desilusão não podia ser maior seguiu-se uma choradeira e uma birra tremenda.
Foi o suficiente para aquele dia de Praia se tornar uma grande decepção e uma chatice. Este episódio da minha vida ainda hoje me leva a pensar em como um pormenor nos pode estragar um dia ou um acontecimento que à partida, tinha tudo para ser magnífico.
1ºFB
Carla Pereira
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