Nasci no final da década de 50 e passei a minha infância em Tramaga, uma aldeia onde a água era da fonte, a ceia servida junto à lareira e a luz vinha do candeeiro a petróleo. As casas arrumadinhas, caiadas de branco eram alongadas pelos pomares que desciam em socalcos até ao rio.
Vivia com os meus pais e quatro irmãs no seio de uma família alargada com primos, tios e avós. Na cumplicidade de sermos cinco irmãs com idades aproximadas, criávamos o nosso próprio programa de variedades imitando os nossos artistas da rádio. Assim, as "Cinco" ainda meninas, eram convidadas a subir ao palco para abrilhantar as festas anuais da aldeia.
Acordava com o cantar do galo. Bebia café, comia o pão e o queijo feitos pela minha mãe e ovos fritos com chouriço da criação da casa. Apanhava tangerinas, laranjas, romãs, lúcia-lima, erva-cidreira e fazia fogueiras de alecrim. Ainda hoje adoro aqueles cheiros!
Pela manhã ouvia cair água dos alcatruzes de um poço onde avencas cresciam nas paredes interiores e dançavam ao ritmo da nora. Daí saía água para a rega que o meu pai fazia com sabedoria de mestre, pois dar vida à terra era uma das formas de sustentabilidade da família.
No pátio da Escola Primária, à sombra das acácias, as crianças brincavam com alegria no recreio, enquanto no largo da aldeia os homens ganhavam o dia a tirar cortiça.
Recordo a fonte, com a sua imponente escadaria, de branco caiada em dias de romaria e enfeitada com arcos de canas verdes e flores coloridas. À tardinha, mulheres e raparigas, com cântaros de barro à cabeça levavam água para casa. Ali, por vezes se combinavam encontros para alguns namoricos.
Recordo a fonte, com a sua imponente escadaria, de branco caiada em dias de romaria e enfeitada com arcos de canas verdes e flores coloridas. À tardinha, mulheres e raparigas, com cântaros de barro à cabeça levavam água para casa. Ali, por vezes se combinavam encontros para alguns namoricos.
Ao coaxar das rãs escondidas nos agriões descíamos a ladeira e então, entre choupos e salgueiros, pedras e pedrinhas da ribeira, encontrávamos refúgio para as nossas aventuras.
Hoje, posso dizer que a atitude positiva e optimista que tenho perante o mundo se deve ao facto de ter crescido num ambiente tranquilo e sereno.
Margarida Policarpo
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